Este texto nada mais é que avisos diversos ao perigo que terás em suas mãos.
Quando acordarmos, vou beijar o seu pescoço. Ou te empurrar da cama pra dormir mais cinco minutinhos. Café da manhã será iogurte com algo bobo na tv. Talvez eu esteja animada, coloque um jazz, um samba ou só pegue no violão... não vai sair nada decente, mas vou ficar horas assim, concentrada e quieta, ouvindo o som de cada corda, sentindo a vibração -metade de mim conferindo se faço certo, outra metade imaginando como pode ser tão bonito.
Vou largar as roupas no armário de qualquer jeito e se você deixar a toalha na cama, não vou nem notar. Vou tomar banho cantando, todos os dias, bem alto e com direito a performances para platéias gigantescas. Mas você não vai ver meu show, pois o chuveiro é meu lugar de paz. O chuveiro, e a janela.
Terão dias que eu vou sentar na janela, apagar as luzes, colocar alguma música e olhar o céu. Ver as nuvens passarem, fofas como algodão-doce, fazendo formas indecifráveis e pensando em histórias que eu escreveria sobre aquelas nuvens. Vou ver as cores do céu e imaginar como seria pintá-las, mesmo sabendo que minha mão nunca vai reproduzir o que meus olhos veem (pelo menos não com tanta beleza). Vou sentir o vento esfriar minhas bochechas e balançar meus cabelos, mas não sinto frio. Tá tudo bem, eu tô feliz assim. Não me perturbe nesses dias. Estarei distante, e se me puxar de volta para a terra, posso ficar aborrecida. Se eu ficar seca, meu bem, não se chateie, não fiz de propósito.
Vou cozinhar pra você sempre que der vontade, e vou ficar perguntando a cada quinze minutos se está bom. Se você disser que não, farei um bico bem grande -e você pode beijá-lo para se redimir. Se disser que sim, perguntarei de novo. E de novo. E de novo. Mas estarei feliz, provavelmente louca para lhe dar um abraço.
Dormir será complicado. Sou espaçosa, durmo no total silêncio e acho sua pele muito quente, mesmo com o frio que faz no quarto. Vou me encostar na parede bem encolhida no início, mas depois estarei te empurrando, te abraçando com as pernas, jogando meu cabelo no seu rosto sem perceber, pode ter certeza. Nos dias que você dormir de costas para mim, vou encostar a testa em você na calada da noite, como se fosse nosso segredo. Nos dias que dormir de frente, vou lembrar de meu livro favorito e vou sentir muita vontade de amá-lo, beijá-lo, mas ficarei quieta, sentindo sua respiração, me perguntando se você sabe o quão importante é para mim e o quanto gosto que durmas me olhando.
Vou dançar sem motivo algum, e farei jingles sobre as coisas mais idiotas -pode ter certeza, descascar batatas nunca mais será a mesma coisa para ti. Falarei horas sobre coisas que você não se interessa, perdão, mas eu fico tão empolgada! São tão bonitas, ou absurdas!
Acima de tudo, vou ouvir, perguntar, te desafiar. Afinal, eu sempre me apaixono por pessoas que admiro, não é mesmo? Não vou querer nunca enjoar de nós. Mas não se preocupe, não quero competir com você, quero ser parte disso que te faz tão grande aos meus olhos, quero que você melhore, quero que esteja feliz com essa coisa -sabe-se lá qual é- mas quero que me conte tudo sobre ela. Me ensine, sou uma boa aluna. Ouvirei tudo que tens a dizer, como uma esponja.
Farei piadas idiotas, provavelmente referências de algo que já vi, li ou ouvi, e provavelmente só terá sentido (ou graça) pra mim, e quando eu for explicar, não terá mais graça. Isso quando não te desafiar pra uma partida de video game, onde se eu ganho, te sacaneio por dias, e se perco, perturbo por uma revanche também por dias. Aliás, quando eu começar a falar de jogos, livros, filmes ou, bem, qualquer coisa: me pare. Senão o monólogo dura horas a fio...
Te pedirei, relutante, para avaliar meus trabalhos, sempre com um quê de dúvida. Seja honesto comigo, não fico chateada de ouvir que está muito ruim.
Teremos um cachorro, e ele terá um nome bobo. Vou mimá-lo demais, e você provavelmente irá reclamar, mas seremos uma família.
Vou invadir seu guarda-roupa e te pedir ajuda no meu. Talvez me aborreça, mas acima disso vou me divertir. Aliás... às vezes, quando rio, pareço um porquinho. Mas só às vezes!
Vou dormir com um livro na mão, e você terá de me cobrir. Vou bater em todas as quinas da casa, e você terá que fazer o curativo. Direi que não gosto de carinhos, mas é tudo mentira. Te farei cafuné todos os dias, se você me fizer uma massagem nos pés ou nos ombros. Vou deslizar pros seus braços enquanto vemos filme crente que você não está percebendo.
Quando eu ficar muito em silêncio, e em seguida te contar algo, ouça. Pode ser a primeira vez que conto isso pra alguém. Certamente é a primeira vez que conto a você, e me é importante que percebas que é importante. Não sei deixar as pessoas entrarem aqui dentro, desse espaço esquisito. Por favor, tenha paciência, um dia eu chego lá, um passo de cada vez. Mas saiba que te amarei incondicionalmente, e direi isso vez ou outra. Farei surpresas bobas e ficarei preocupada se você gostou realmente. Nunca chegará o dia em que ganhará um presente que não gosta: eu penso cuidadosamente em todos com muita antecedência, e faço de tudo para conseguir justamente aquela única coisinha que sei que vai te arrancar o sorriso mais bonito da face da Terra (pra mim é o mais bonito, de qualquer forma).
Cuidado com flashes. Teremos muitas fotos. A maioria boba, fazendo careta. Teremos também algumas outras fotos, bom... não sei como dizer. Esconda-as no fundo da gaveta.
Quando fizermos amor, gemirei seu nome bem baixo no pé do ouvido, para depois mordê-lo. Sairá da cama (ou qualquer outro móvel ou cômodo) roxo, descabelado, arranhado e, espero eu, sem nenhuma energia restante. Beije meus seios e talvez minhas pernas tremam de prazer. Cuidado com a curva das minhas costas, sinto cócegas! Muitas! Vou dormir com suas camisetas e minhas cuecas, porque gosto do teu cheiro, e porque acho que te provoca. Bom... me provoca, de qualquer forma. Te mandarei mensagens na hora do almoço -o tema pode ir desde o conteúdo do meu almoço à falta de conteúdo nas minhas roupas, se você me entende. Entenderá. Estaremos sentados no sofá, e te jogarei para o lado. Sim, assim, do nada. Não procure sentido nas coisas que eu faço, apenas... aja conforme o que lhe é dado. A vida comigo é uma surpresa.
Será uma grande carga de refeições vegetarianas, filmes antigos, baboseira sem fim, brincadeiras sem graça, umas tantas grosserias e palavrões e um sexo diferente. É tudo que tenho a dizer.
A pergunta, na verdade, é se você quer a vaga.