abril 09, 2011

[Concurso DdE] Fantasma branco.


                                “Sobrenomes não importam. Pra onde vou?”
Era assim que a moça perdida no fim de Albion gastava seu tempo, pensando no berço que deixou para trás. “Eles só sabem fazer festas e fofocar; Me obrigam a usar roupas desconfortáveis, Mamãe até me comprou uma peruca loira depois que cortei o cabelo. O pior?” - Ela reclamava; “eu tinha que falar e sentar como eles. Até parece”.
                Esquisita. Era uma palavra que Guinevere Baldovin ouvia desde sempre. E ela nem sabia por quê.
                Para começar, Senhorita Baldovin tinha sobrenome de menino. Segundo, ela própria parecia um menino. Terceiro, Baldovin falava sozinha. E muito. As crianças tinham muito do que gozar, não que eu ache graça. Ela odiava seu outro sobrenome, filhos de nobres e adultos nobres.
                Crescida, ela se questionava se seus pais eram reais. Certo dia gritou à mesa que tinha solucionado sua dúvida com a frase “penso, logo existo”mas depois desistiu pois ela ainda não podia descobrir se existia ou não. Só sabia que algo estava errado, e esperar príncipes era inútil. Ela queria entender de onde vinha sua serenidade irritante, de quem já conhece a vida há muito. Aí ela disse que sentia-se assim porque libertara seu ego do corpo e agora só restava em si sua quintessência. Perguntaram-na de onde vinha tal besteira, ela disse que de um sonho. A partir desse dia, proibiram a moça de freqüentar os lugares.
                Uma semana depois Guinevere desistiu de ficar.
                E aqui estava, acompanhada de nada mais que uma muda de roupas encardidas e agora havia uma pequena borboleta que a seguia constantemente; era delicada e de um azul quase branco, que às vezes a moça jurava ser roxo. Já era noite.
                -Onde vamos dormir ein? Sob as estrelas, já que não trouxe coberta nem nada? Ou vamos continuar? Anda Lilac, te deixo escolher. Mas pelo criador, não seja exigente.Olha só eu, conversando com um produto da minha imaginação. É por isso que sonho, Lilac, porque não posso contar com nada aqui, já que nada é real. O criador me fez com defeito, ele me fez com um dispositivo de sonhos sem sentido integrado. Você acha legal Lilac? –A borboleta ziguezagueava a cabeça da jovem- Eu não. Tente experimentar não saber o que é real...
                Se ela achava que Lilac, a borboleta não podia entendê-la, ela não poderia estar mais errada.
                Tentarei narrar os fatos o mais fielmente possível, mas é claro que será difícil de me fazer entender, você verá por quê. Vamos começar com Baldovin desesperada ao reparar que estava agora sozinha no meio de um deserto com uma vegetação rala e queimada típica de fim de reino, fora o completo escuro. Eu também teria medo. Mas a sorte parecia estar a seu favor depois que ela pediu um favor ao Criador. Como que por passe de mágica, seus olhos acharam duas luzes bailando juntas. Uma casa. Correu até lá tão rapidamente que nem viu de onde veio o cão que a arranhou as costas, fazendo-a cair desacordada.
                Baldovin acordou de banho tomado, em uma cama confortável e um cheiro irresistível vinha de fora do cômodo. Lá descobriu a moça mais simpática que poderia existir. Serviu Baldovin de bolos fofos e outras guloseimas. Baldovin quis ficar mais um dia. E outro. E mais outro. Ali estava em paz, nem seus sonhos esquisitos a perturbavam mais.
                Ao invés, outro tipo de perturbação vinha.
                Teve um dia em que ela ia pegar água no riacho como sempre fazia, esse foi o primeiro dia que ele apareceu. Um menino mais novo que ela e dava uma sensação de desconforto. Sem contar os olhos pavorosamente azuis, quase brancos de tanto que brilhava. Ele aparecia todos os dias, perguntando onde ela estava. Quis contar a sua senhoria, mas pensava que ela iria achá-la estranha. Todo a achavam estranha, mas ela não lembrava mais... O pior era isso, quanto mais tempo ela ficava, menos se lembrava do por que estava ali. Mas era um lugar de paz, e nada importava.
                Até que ela teve que voltar ao riacho. Ele estava lá.
                -Não me venha com historinhas, não quero conversar. Não tenho idéia de onde estou, e não quero saber - ela adiantou quando percebeu que ele fez menção de abrir a boca.
                -Mas você não quer nem se lembrar... Esquisita.
                - Eu esquisita? Porque seria?
                -Seu cabelo está crescendo. Até vestidos você veste. Achei que seu nome fosse Baldovin...
                - Como sabe meu nome? E isso não te diz respeito-ela estava irada e nem reparou como os olhos dele oscilavam de azul para arroxeado quando o sol não o atingia.
                - O meu é Arthur. Mas acho que você sempre soube, não é? O Criador sabe que você se lembra, por que se livrou de tudo que apagava sua quintessência...
                - Não quero saber de onde você vem. E um Criador não existe, bobagem.
                -Não quer nem saber se eu sou real? –a expressão da garota mudou totalmente depois da frase. Quis abrir a boca, mas ele já havia dado de costas - tente pensar, e ver se você existe.
                As palavras ecoavam em sua cabeça. Tudo parecia turvo, até a sua anfitriã parecia feia e a comida menos saborosa. Tentou se lembrar. Não conseguia. “Tente pensar para ver se existe”. Penso, logo existo. Depois de algum tempo tudo que conseguiu foi uma dor de cabeça épica.
                No dia seguinte o mesmo. Quanto mais ela queria se lembrar, mais fraca ficava. Lembrou-se de seus sonhos e da dificuldade entre saber o que era sonho e o que era a vida. Uma curiosidade surgiu, e ela foi do jeito mais silencioso que conseguiu até a cozinha e pegou uma faca.
                -Quer aprender a cozinhar? –A moça surgiu com um sorriso falso.
                -Está calor, né? Queria prender o cabelo, colocar uma calça e uma camiseta...
                -Você pareceria um menino!
                -Como, se o Criador me fez menina? - ela continuou interrogando, observando a expressão de “como?” no rosto da outra.
                - Como pode acreditar em algo do tipo? Você é puro éter, não precisa de um criador para te moldar, muito menos que algum semideus acredite em você para existir. Não há semi-divino, justamente porque não precisamos acreditar neles. Não é real, está bem?
                -Real? –Ela pegou a faca escondida- Eu nem sei mais o que é real- e enfiou a ponta da faca na própria mão. Ela se agachou de dor e sua cabeça começava a oscilar. Ora era uma choupana colorida, e então estava velha e aos pedaços. Ela conseguia aos poucos se lembrar de tudo mas agora se achava encurralada no seu próprio mundo de sonhos e ali mesmo iria morrer. “eu acredito em você, então me salve” foi só o que deu tempo de pensar do fim.
                Alguém abriu a porta e a levou embora; Seu salvador era quem começou tudo isso.
                -Arthur eu acredito, você existe, isso tudo que não existe...
                -E é porque você acredita em mim que eu existo. É porque você acredita em todos os semi-deuses que eles existem, é por isso que este mundo é magnificamente formado por éter. Na verdade meu nome é Vera, semi-deusa da crença, só meu corpo é de Arthur, o que você conhece melhor que todos, Guinevere Pendragon Baldovin. E Porque passou em seu teste, que deixo que saia deste mundo de sonhos para lutar por si mesma no mundo real.
                Quando deu por si, estava deitada em um altar de sacrifícios, e o local era a mesma cabana de antes, escura e fedorenta. Ao seu lado estava um prato com algumas ervas e um Athame, que ela decidiu ser dona em caso precisasse.
                Levantou-se e cheirou um tubo que parecia ter veneno e só o cheiro a deixou sonolenta. Só não voltou a dormir porque um gritinho a acordou. Era a moça dos sonhos, mas parecia magra e com olheiras debaixo dos olhos.
                - Você deveria estar sonhando até o ritual ficar completo... Como?
                E então sua vítima começou a correr. Baldovin corria jogando tudo em seu caminho para trás querendo atrapalhar a bruxa, mas sem sucesso. Não tardou a ser apanhada, e só se livrou mais uma vez por arranhá-la com a pequena faca e os segundos que a bruxa ficou choramingando de dor foi o tempo perfeito para que ela se escondesse.
                -Eu não vou te machucar que tal? Apareça querida... –A voz ecoava pelo corredor e avançava até a porta do porão -Aaaah, você está no porão, não está?
                A bruxa estava na porta quando foi empurrada e rolou escada abaixo. Baldovin foi atrás e puxou seu cabelo, ameaçando-a com a rente ao pescoço da moça, que começou a chorar.
                - Você não entende... Eu não sou má, eu não quero ser, eu desisti...
                -Então porque está tentando fazer um ritual comigo? –A voz que saiu da boca de Baldovin foi rouca e sibilante.
                -Quis aprender bruxaria, mas desisti... A professora então roubou meu amado para que eu a ajudasse num ritual. Ele está sofrendo, você não entende... Eu não sou má, não sou... Me  deixe ir... –A moça soluçava enquanto tentava pedir por piedade de alguém que acabara de ser corrompida pela maldade do mundo e agora conhecia os dois lados, o bem e o mal.
                -Bem e mal não existem isso é só um ponto te vista. E do meu, você é má. Muito má.
                Não pensem que ela a matou com a faca. Ela apenas devolveu. Tirou do bolso o veneno que do sonho e virou tudo na garganta da moça que adormeceu. Baldovin esperou até que o cachorro viesse cheirando o corpo da moça e começasse a lambê-lo, talvez pensando que seria uma ótima janta. Enquanto isso, Guinevere Pendragon Baldovin, a reencarnação da Rainha Guinevere a companheira do Pendragon ainda adormecido corria, corria por querer viver, corria por agora saber quem era, corria porque o mundo estava no apocalipse, corria porque ela tinha que conhecer alguém.
                Tic toc. A jornada começou.