Ah, tempo. desperdicei-o como toda boa mulher, desperdicei-o com este tal de coração, julgando-o o maior e único dos meus problemas. Acredito que isto deva-se ao fato de que desde pequenas somos levadas a acreditar que o final feliz é aquele em que olhamos no espelho e damos de cara com uma cama de casal, cobertores espalhados, uma flor na cabeceira. Então, desacreditadas, olhamos pelo corredor e vislumbramos pelo canto do olho um quadro, um retrato: um casal feliz. E então, fantasiosas de natureza, mesmo sem poder ver o outro rosto naquele quadro que não o nosso, começamos a imaginar como este seria. Alto, moreno, pele alva, cabelos bagunçados, um cheiro doce e ao mesmo tempo forte, que me deixe sonolenta quando deito na cama em seus braços; que me dê todos os mimos que mereço e me acorde com beijos pequeninos no pescoço. E então nos vestimos, da melhor maneira que podemos. Nos vestimos como o rosto ao nosso lado no quadro gostaria que nos vestíssemos. Descemos as escadas, mas não há ninguém lá. Em toda a casa. E então saímos pela rua, desnorteadas e cegas com a claridade; vemos rostos, mil rostos, chegamos bem perto, mas nenhum deles se assemelha àquele na bonita fotografia emoldurada. Andamos, andamos. Está calor, e nossos pés tem bolhas, então entramos pegamos o celular, ligamos para nossas amigas e as esperamos no provador de uma loja qualquer. Enquanto conto que tenho um lindo quadro pendurado na parede branca de minha casa, elas escolhem minhas roupas. E então, renovada, saímos novamente as ruas.
Depois de horas de procura, pensamos: "Oh, ele já deve ter chegado em casa. Preciso preparar o jantar". Mas então percebemos que está de noite, não há ônibus, e gastamos nossas economias com aquelas roupas. Mais cansadas e ansiosas, voltamos lentamente, pensando no quê cozinhar.
Chegamos correndo, escancaramos os armários e fazemos um grandioso banquete. Tudo cheira muito bem, tudo parece muito bem. Mas as luzes continuam apagadas.Enraivecidas, corremos pelas as escadas, prontas para quebrar a fotografia, mesmo que em seguida iremos ligar para o vidraceiro e encomendar uma nova moldura. Corremos, corremos, até chegarmos à fotografia, nosso coração se prepara para perdoá-lo.
Mas a foto não tem nenhum moreno, a foto sou eu, numa beca azul com um pequenino diploma nas mãos. Um sorriso mergulhado em sonhos e proezas. É uma fotografia de anos atrás, e então olho para minha casa, que é pequenina e feia. Desço e o banquete me parece feio.
São dramas femininos, herdados de antigas gerações. Nossas mães nos diziam isso, nossas avós nos diziam isso. Mas meu avô traía minha avó e minha mãe recentemente separou-se e agora vive com gatos.
Sou uma mulher esquisita por abandonar meu coração e viver de sonhos, talvez. Vivi muito de amores, ou melhor, um amor, e pequeninas paixões. Nunca fui obsessiva nem nada, mas não gosto da pessoa que me torno ao tentar ser uma simples mulher. Me torno paranóica, inútil, cheia de dramas e desconfianças, e ainda sorrindo, acima de tudo, é claro. Toda boa dona-de-casa lava a roupa suja em sua própria casa.
Depois de tanto tempo, percebi que meu final feliz talvez seja seguir em frente. Não é necessário tanto escândalo, nem tantas redes sociais, vivia muito bem antes de tudo isto. Só preciso de uma folha de caderno, mil revistas, uma máquina de costura e minha mente. Não quero aventuras, quero um bom boletim, um bom emprego, um bom apartamento com minha melhor amiga e uma boa faculdade. Acima de tudo, quero uma mente trabalhada, e invencível. Quero substituir o meu quadro no meu casebre por um ainda maior. Ao meu lado, um manequim assustador e sem cabeça. Sem procuras, sem dor, sem esperanças em algo que não seja meus próprios objetivos. Se eu for mulher o suficiente, então um dono de um quadro me achará, e meu rosto será colado numa montagem no dele. Se eu não for, bom, eu sempre gostei de gatos.