Escuridão.
Tudo ao redor fica claro como água cristalina, o tom aumenta, o ritmo flui. A pele esquenta, eu viro, esfria. A respiração tá lenta, acelero. Tá pesada. O peito tá pesado. E não dá pra explicar.
Sobe e desce. Tudo normal. Mas tá errado, muito errado. Ele aperta o coração, a gravidade é maior, o peso é invisível, o medo cresce, o nervoso me devora de dentro pra fora, eu penso em outra coisa.
Eu penso em você.
Eu penso em mim. A guitarra inverte, toca na mesma freqüência da minha essência nesse exato momento, o tom se alinha e vai me levando, feito flor da manhã na maré. A voz tímida sai, e se liberta, cria pernas e voa. Arranha uma manobra no ar, arranha uma corda na garganta, arranha uma dor no tom. De olho ainda fechado eu canto, e canto, e existo com a música, por causa da música. Meu coração acelera, o avalanche vem e eu tenho que vigiar o furacão que sou eu mesma, possessa.
O olho pesa, as costas doem, o peito amarga, a garganta seca, o braço estala, a lágrima seca, a voz grita tudo que tem aqui dentro, e sai, sai, sai, não para nunca, eu acho.
Mas amor,
Tudo que é perfeito dá defeito cedo ou tarde.