Não sei se foram as noites diante dessa tela azul, que na época não era tão vazia. Eu não sei se foram as horas incontáveis no telefone; talvez tenham sido o tanto de risos, o outro tanto de brincadeiras que eu fazia, estúpidas, e você ria como se fossem as mais engraçadas do mundo.
Pode ser que tenham sido aqueles dias no teu quintal, a gente passava a tarde conversando, mas na verdade eu deveria estar estudando. Tanto faz, era muito mais gostoso contar as borboletas passando deitada no teu colo.
Ou será que foram as tantas noites olhando as estrelas? Lembra, aqueles tantos dias que a gente dormiu deitados na areia, abraçados como um só porque o frio da praia era demais pra nós dois?
Você se lembra?
Daquela vez que nós fomos ao parque, já era fim de tarde e eu estava morta de saudades. Quando nós caímos na grama de tanto você me fazer cócegas; eu quis tanto te beijar naquela hora, te dizer que não queria ir pra casa.
Mas eu fui embora, é claro. Já era dia, já era tarde, já era noite, e nós dois ainda estávamos esticando a preguiça deitados na cama, falando de coisas malucas que não faziam sentido pra mais ninguém, enquanto você tocava e eu acompanhava quietinha do lado.
Não sei se você sabe, mas naquele dia que voltávamos pra casa e eu escondi meu rosto na poltrona porque estava arrependida, não era verdade. Nem um pouco. Eu queria estar ali, hoje, ontem, amanhã. Eu queria continuar ganhando esse teu cafuné gostoso, eu queria ter levado a sério quando você me abraçou na minha casa, mesmo sabendo qual era o nome que estava escrito naquele papel que eu pateticamente tentei esconder de você colocando ele na boca.
Os dias que eu voltei pra casa andando devagar. As vezes que eu passei a tarde inteira vendo o dia passar e olhando pro céu. Os tantos olhos repetidamente vermelhos.
Todos os beijos que eu te dei. O único beijo que eu quis te dar e não pude, ali na porta da rodoviária enquanto eu ia embora, agarrada ao cachecol que você fez pra mim. O presente que eu quis abrir e não o fiz, porque fiquei com medo de parecer muito ridícula de tão feliz. O meu sorvete de baunilha que era muito mais gostoso que o seu de morango e nós tivemos que dividir, dois bobos no meio da rua. Quando você tocou aquela música pra mim, na frente de todo mundo, sem ninguém saber do que se passava, e eu não sabia se ela era mesmo pra mim, mas passei o resto da semana a procurando, pra ouvi-la sem parar. Ou o dia em que, mesmo eu dizendo que não iria aceitar tudo de novo, tive que amolecer enquanto você cantava Cazuza e Bebel, me aninhando no teu travesseiro.
Eu lembro de todas essas vezes, e muitas outras. Acho que você lembra disso também. Daqui a 50 anos eu talvez já esteja meio esquecida. Ou não. Mas não estarei arrependida de nada. Eu não sinto muito que a partida tenha acontecido, porque sou agradecida pela estadia. Todo mundo vem e vai, mas eu talvez nunca tenha dito "obrigada".
Oh baby, I was bound to let you go.