dezembro 06, 2012

Santa Claus is coming to town

     Sentada de cócoras sujando as roupas de pó e terra, tentando colocar os cabelos cheio de pedaços de grama para trás, ela não queria nenhum obstáculo no meio do espetáculo, até porque, foi muito difícil conseguir tudo aquilo, conseguir as pilhas, achar um lugar calmo pra passar a noite, fazer uma cara convincente enquanto andava pela rua lotada de crianças felizes correndo de um lado pro outro enquanto os pais desesperados saíam empurrando a multidão tentando agarrar os filhos que fugiam e já faziam uma incômoda e inconveniente (não para Jamie) guerra de bola de neve no meio do tráfego, sujando os casacos escuros do branco brilhante da neve. Mas acho que por ser noite te natal, as pessoas estavam mais preocupadas com seu peru esperando para ser comido em casa junto à família do que avaliar o comportamento de uma mendiga qualquer lutando contra o frio fora do comum daquele inverno. Ou talvez elas estivessem mais generosas. Mas não, a primeira opção era mais confiável (embora a parte principal do show de hoje tenha sido presente de uma criança muito gentil que tudo que ela sabe é o primeiro nome, o mesmo que o seu. Mas mesmo assim), desconfiar sempre era a opção mais confiável. Mas não aquela noite.
     Aquela noite ela ia se desligar e aproveitar pela primeira vez em muito tempo uma beleza que era só sua, ela não precisaria ficar espiando pelas janelas ao longo da rua. Hoje sua casa, mesmo que remendada, quase sem teto e sem luz nenhuma, era o melhor barraco abandonado que ela já tinha achado desde que foi pra rua aos 13 anos; agora, 8 anos depois, era uma pessoa diferente, que ao invés de chorar as desgraças da vida, agradecia suas bênçãos, fosse essa um pão a mais, cortesia do padeiro, ou uma árvore de natal pequenina dada por uma simpática criança, ela sabia aproveitar o pouco que tinha e podia-se dizer que vivia muito bem assim. Você tem que aproveitar as pequenas coisas, não importa sua situação. Jamie ficou então esperando a rua esvaziar. Quando o tráfego parou por total e de fundo só se ouvia as conversas em família, os risos e piadas novas ecoando pelas esquinas, ela deduziu que era hora. Já devia ser quase meia-noite então ela decidiu que era hora de começar. Foi obrigada a colocar uma luva sem dedos para poder colocar as pilhas, mas a verdade é que ela queria tocar na árvorezinha com suas mãos e aproveitar cada segundo. Ela não via de perto uma árvore de natal há anos, mesmo muitos anos de tudo acabar como acabou, as coisas já estavam ruins e ela já não lembrava como era um pisca-pisca ou o ritmo de "Jingle Bell", e não importava o frio que estivesse aquela noite ou o fato dela estar doente demais pra expôr qualquer pedaço do seu corpo, ela queria sentir aquela cena. Então ela pegou a árvore de natal que não tinha mais do que 50 centímetros, abriu a caixinha, inseriu as pilhas, a excitação correndo pelo corpo.
     O tilintar de taças de vinho nas casas aquecidas e felizes foi apagado pelo som azedo que saía daquela caixinha, estava tocando uma antiga musiquinha que ela e seu irmão sempre cantavam quando pequenos. Ela continuava encarando as luzinhas pequenas piscando, o rosa virando amarelo, azul, verde, roxo, e assim continuava, sempre piscando, sempre cantando. Jamie continuou encarando aquela pequena árvorezinha por horas e horas, enquanto todos já tinham ido dormir, ela continuava ali, segurando os pézinhos quebrados da árvore nas mãos, não queria que ela caísse no chão, tinha medo de que algo acontecesse e quebrasse o presente. E assim ficou, a noite acabando e ela continuou agarrada à árvore como se todas suas esperanças estivessem depositadas naqueles galhinho verdes com bolas vermelhas cor de tomate, ela estava tão feliz que queria ficar assim pra sempre e então, de repente, lembrou a letra daquela música, lembrou exatamente da voz do irmão cantando abraçado com ela, e sentiu saudade, morreu de saudade.
     Sentada no chão, ela foi se deitando. Quando o dia chegou, ela estava dormindo. Quando o dia acabou, ela não levantou. Foi com uma lágrima no canto do olho, a árvorezinha presa no dedo gelado que encontraram ela alguns dias depois, coberta de neve. Mas a árvorezinha ainda estava acesa, sempre piscando, sempre cantando.
      Mi, sol, dó. mi, ré, sol, dó, ré. Sempre piscando, sempre cantando, assim seu espírito seguiu.