novembro 17, 2012

Noite fria

Tic. Toc. Tic. Tic. Toc. A voz começa. Suave. O vento passa, gelado. O peito bate, arritmia.

Fecha o olho. Ouve a música. Sente o mundo.

A janela escancarada deixa a luz da lua contrastar o breu da noite no chão de madeira, já molhado abaixo desta pelas gotas pesadas de chuva que caem sem cessar do lado de fora. As folhas aproveitam a chance, aproveitam o vento forte, gélido e delicado para entrar na casa e fazer parte da dança.
Uma taça de vinho, um gole demorado, desce a garganta, queima o peito e acende o coração. As mãos percorrem a prateleira empoeirada e tira um CD. Põe pra tocar. Solta o cabelo.

Dum. Dum. Dum. Dum. O baixo surge. A noite baixa. 

O vinho fica sozinho na mesa, a sala vazia ecoa a voz doce, calma, os pés começam a se mexer. Esquerda, direita, esquerda, o quadril entra no embalo e de repente todo o corpo cede ao momento. As mãos acariciam a barriga, se jogam e balançam ao ar como folhas de papel, os pés se cruzam, rodam lentamente. A dança começa.

Se alguém passasse na rua veria uma cena de extrema beleza. Ela, ali, a beira da janela, os olhos fechados, pisando para lá e para cá sem pressa, só amor, a camisa branca, pura e solta, mostrando as pernas cor-de-lua, o corpo fazendo contraste com o breu da noite. Mas se alguém estivesse ali, naquela sala de madeira escura rangendo silenciosamente não veria nada. E veria tudo. A sala, a dança, a janela, a chuva, a música, as folhas e ela eram um só coração batendo toda a pureza e calma de um coração vermelho-sangue. 

Dum. Dum. Dum. Dum. O coração bate.

Dum. Dum. Dum. Dum. O baixo se vai. A música acaba.

Aperta o play, por favor moça. E começa de novo.