junho 11, 2012

Uma história sobre a vida e o amor.

          Amanda chegava do trabalho cansada, jogava a bolsa no sofá e ligava o chuveiro. A janta seria a de ontem mesmo, era só esquentar no microondas. O feijão estava muito quente.
Hoje Amanda conheceu um cara. Hoje o carro não pegou e Amanda teve que ir pro trabalho de metrô. Ela odeia metrô, um cara chato roubou seu lugar, uma mulher gorda pisou no seu pé e um imbecil derrubou sua pasta. Maldita pasta! Pelo menos o idiota abaixou para pegar os desenhos que se espalharam por todo o chão lotado do metrô... bom, talvez ele apenas tenha esbarrado nela, vai saber, ela não deveria xingá-lo assim de cara, sem saber quem ou como ele é. A própria Amanda era tão desajeitada quanto ele.

          Gabriel queimou a língua comendo aquele macarrão, e ele não sentia o gosto de mais nada no prato, porém, dizer a Amanda que não sabia se a comida estava boa ou não -coisa que ela perguntava a cada cinco minutos- era praticamente o mesmo que amarrar uma corda no pescoço. Ele bem sabia como aquela mulher era zangada, considerando que ela o socaria se estivesse mais perto naquele dia. Ninguém sabe como é que ela nunca havia reparado nas pessoas que trabalhavam naquele andar. Maluca.

          A cama não tinha mais lençóis, os vizinhos provavelmente não tiveram sossego. Tudo estava jogado no chão, como se um furacão tivesse passado. Era calcinha de um lado, óculos do outro, Amanda podia ver os pertences dos dois pendurados em cada canto do apartamento. O dono de metade dos bens, porém, estava dormindo feito um anjo e nem ela poderia adivinhar do que alguém assim era capaz. Amanda até esqueceu de lavar a cabeça enquanto observava o garoto encolhido em sua cama.

           Gabriel cheirava a cigarros, e apenas cigarros. Cigarros e nada mais. Ele deveria ter voltado, sabia disso. Deveria ter voltado, mas não voltou. Na hora ele se lembra de estar cansado, mas não se lembra mais do que. Incrível como diante da dor de viver sem aquela mulher a causa de estar sem ela nem é mais algo que ele consiga se lembrar. Por um momento nessa longa noite, Gabriel viu que dia era. Percebeu que estava há dois meses com esse cheiro insuportável de cigarro nas roupas. Ele tomou um banho, pegou o celular e carregou. Ele tinha que tentar mais um vez. Não era assim que ele sempre fazia, voltava e consertava tudo de novo?

          "Essa noite eu quero ficar é louca" foi a única coisa que passava pela cabeça de Amanda. Só queria dançar, beber, ficar chapada até tudo virar neblina. E foi o que fez. Poucas vezes na vida Amanda lembrava de ter ficado tão inconsciente como aquele dia, era como se seu corpo fosse uma entidade e sua consciência outra, uma dizia o que ela devia ou não fazer. A outra simplesmente fazia. Qualquer coisa que o corpo visse na sua frente ele bebia, qualquer música que suas orelhas ouvissem a faziam dançar. Não foi surpresa quando seu corpo não negou carícias de um estranho nem a chance de viver um romance de uma só noite. Era melhor no momento querer esquecer de uma noite que várias.

          Hoje Gabriel acordou disposto a ser um cara diferente. Hoje ele acordou cedo, comeu frutas no café da manhã, tomou um banho delicioso. Hoje Gabriel leu o jornal -coisa que ele nunca foi muito fã- e colocou cuecas novas para o trabalho. Hoje, inclusive, Gabriel pensou em não ir para o trabalho. "Isso não é vida, não há nada de extraordinário sobre o meu dia-a-dia" foi exatamente o que passou pela cabeça dele. Seu apartamento, porém, o fez mudar de ideia. A pia quebrou ontem, a geladeira desligou sem nenhum motivo e estragou toda a comida e ele passou a madrugada com dores pela comida chinesa. Ainda pensando no sentido das coisas, Gabriel foi trabalhar.

          Ele passou de novo e de novo naquele corredor. Ele estava olhando para ela. Ela mexia no cabelo toda vez que o percebia. Ninguém sabe quem começou primeiro o jogo, só sabiam que ele não levava a nada. Talvez beber água coloque algum juízo na cabeça, foi o que Amanda pensou. Porém ele estava lá, bebericando café. Ela leu o crachá e descobriu o nome dele.

          A porta fechada atrás de Amanda parecia na verdade um portal para sua alma. Aquele portal estava fechado. Ela não quis ficar em casa, tudo era terrível e ela só queria espairecer, por isso trouxe consigo um livro qualquer. Dirigiu-se ao outro lado da rua, sentou no primeiro banco que viu e abriu a primeira página. Virou para a segunda. Virou. Mais uma vez. Ela se viu não lendo o livro, mas pensando em que momento eles chegaram àquela fase, a das palavras não ditas, do silêncio feio, das brigas constates, do mau-humor interminável. Eles seguiram o plano de não seguir planos. Compraram um cachorro, plantaram uma árvore, foram ao teatro, fizeram amor inúmeras vezes em todos os cantos do apartamento, do bairro, desse estado e até do próximo. Ela percebeu que a cada 5 páginas seus olhos encaravam o portão, não muito longe, esperando ele voltar. Ele aparecer e tentar consertar tudo de novo. Era assim que sempre foi, era assim que tem que ser. Mas ele não voltou. E ela percebeu que se um dia ela parasse de olhar para aquele portão, então tudo teria mudado. Mas mais importante, ela percebeu que ele voltaria, sim. Mas pela última vez.

           Gabriel puxou Amanda de volta para o tapete e quase levou um soco, uma das "inofensivas" reações da garota à suas cócegas. Ele contou que essa seria a segunda vez que ele levaria um soco dela e a ouviu reclamar que talvez devesse ser uma mulher mais atraente, fatal. Ele disse que não importava como ela fosse, ele a amava assim como era. Poucas vezes na vida Gabriel viu um olhar tão tenro e apaixonado como o daquele dia. São momentos assim, ele pensou, que fazem a vida. São esses olhares que te fazem esquecer tudo de ruim que aconteceu, são esses dias que ficarão na memória. Ele quis beijar-lhe a boca, mas ao invés, beijou a testa. Contemplou a confusão de Amanda. Para piorar, perguntou se ela, que detestava planos, não queria um cúmplice. Aquele beijo. Ele definitivamente não esqueceria aquele beijo forte, aquele sim derretendo em e na sua orelha.

           Ao quase derramar seu café, sua mente tomou uma decisão. De pequenos passos é feito uma caminhada, não é isso que ele sempre diz? Gabriel arrumou sua camisa, encolheu a barriga, levantou o peito e fez um elogio. Muito idiota. Mas descobriu o nome dela. Não precisou de muito tempo para convidá-la para jantar.

           Amanda acordou num apartamento desconhecido, cheirando mal e com uma tremenda dor de cabeça. Procurou pelo bilhete com uma pílula em cima que Gabriel sempre deixava quando ela estava doente, mas não achou nada. E aí lembrou que não existia mais Gabriel. E ela nem sabia o nome do sujeito fazendo barulho em algum cômodo que ela desconhecia. Ela queria espairecer mas agora parecia que tudo tinha sido uma péssima decisão. Como que para lembrá-la do porquê de estar acabando consigo o telefone tocou, e o único contato salvo com um toque diferente, animado, a música que tocou num dia memorável, ela bem sabia, era a pessoa que ela deixou escapar. Mas atendeu, mesmo assim.

           Amanda e Gabriel não faziam muita questão de uma festança, nenhum dos dois era disso -nunca foram- mas os filhos queriam, achavam necessário, e se não tivesse doce algum os cinco netos ficariam inquietos demais e um discurso jamais seria ditado em paz naquela casa. Então que assim fosse, se eles estivessem ali, nada mais importava. Os presentes naquela noite não puderam se conter e mais da metade chorou. Embora nenhum dos dois fosse muito de escrever, eles fizeram um dos discursos mais lindos de bodas de diamante que se via há anos. Eles não juraram amor eterno, não. Eles contaram das brigas, contaram de um fim-de-semana na praia, contaram os estresses de Amanda ao esperar Mariana e de como Gabriel às vezes largava a esposa pra dormir no sofá com o cachorro. Contaram que muitas burradas aconteceram e de como o tempo lavou todas elas. Contaram do primeiro fio de cabelo branco de cada um e até se emocionaram, quando disseram, por alto, uma vez em que quase deixaram pra lá. Inclusive contaram que nem se lembram do porquê daquela briga, só que ela foi feita, e quase desfez a possibilidade de existir a comemoração de hoje. Ele disse que só lembra de um beijo e de um olhar de derreter qualquer marmanjo que ganhou de Amanda quando jovens, Ela disse que uma vez percebeu que se ela se estragasse tudo de novo, ele não voltaria mais. Ela disse que ele a aprecia todos os dias. Ele disse que ela nunca briga por nada, já que poucas coisas no mundo são mais importantes que o amor. Eles disseram que amar é uma grande aventura.

           Mas o mais importante, para mim, foi quando eles disseram que é pra viver. Pra cada um abrir os olhos, fechar o livro e viver. Que quando você aceita que um dia vai morrer, então você faz apenas aquilo que vale a pena, e faz ao máximo. Hoje, eu pensei, eu vou valer a pena.