Desliga a luz da sala e sai pelo corredor, bate a porta e corre. Corre, corre, corre de fininho. O corredor chega ao fim e a noite domina a entrada. Sai pela janela, foge. Some. Desce a rua e pula, grita, ri. Entra no carro. Senta.
Não põe o cinto, olha o cabelo no retrovisor, repassa o batom. Olhos de raposa. Liga o som, dá partida. Não espera o motor aquecer e pisa no acelerador. Abre a janela e deixa o vento passar, entrar, invadir.
Uma hora. Duas horas. Três horas. O sol nasce e atrapalha a vista. Entra na rodovia à sudoeste e sente o coração palpitar. Reconhece a vista e pisa fundo, ri.
Último quilômetro. Para e compra uma bola colorida. Senta no banco, fecha a porta, respira fundo.
Quatro ruas. Três, duas, uma. Para o carro, bate a porta devagar. Esfrega as mãos. Nervosismo. Faz carinho no cachorro, entrega a bola. Atravessa o quintal, devagar. Toca a campainha.
A campainha faz o mesmo barulho de sempre, o cachorro não late. Corre pro espelho, coloca o salto, corre de volta pro quarto. Empurra a cortina. Ela está na porta. Pega a mala, procura papel e caneta, escreve o bilhete. Desce as escadas, para. Respira. Olha pra trás, mas não há mais o que pensar. Gira a chave e abre a porta.
O primeiro beijo, os perfumes se misturando, os dois sorrisos gigantes, as testas coladas, o cachorro abanando o rabo do lado..
-Você demorou.
-Mas eu vim.
-E já estamos atrasadas.
Bota o cachorro dentro do carro. Fecha a porta. Liga o motor. E vai.